Segunda-feira, 23 de Outubro de 2006

Escrito o ano passado (para o clube europeu)

Dia 2 de Setembro de 2005

 

Primeiro dia em Portugal… Portugal mais me parece um pesadelo…não que não seja um país bonito, porque achei Portugal um país magnífico… mas por muito bonito que Portugal seja não é o meu país.

Chamo-me Yana, tenho 15 anos e venho da Moldávia. Passei a vida toda a pensar que um dia sairia da Moldávia e iria viver para qualquer outro país onde a qualidade de vida fosse melhor. Finalmente saí do meu país… e cada passo que dou parece-me errado. Apetece-me voltar para trás, mas agora já não há volta a dar… Quando morava na Moldávia o meu pai trabalhava como médico num hospital público, e a minha mãe tinha acabado de tirar o curso de psicologia, e estava a pensar em abrir um consultório só para ela, mas para isso era necessário dinheiro para começar. O meu pai começou a pensar nisso e um dia enquanto estávamos todos a jantar anunciou-nos que se iria mudar para Portugal. Explicou que nos primeiros tempos nós continuaríamos a viver na Moldávia, mas se as coisas em Portugal fossem fáceis eu e a mãe iríamos ter com ele.

Comecei a aprender a falar português com o marido da minha prima que trabalhou três anos em Portugal, e todos os dias ia à Internet onde procurava qualquer coisa sobre o país que se tudo corresse bem, seria a minha nova pátria.

Passaram-se três anos desde a ida do meu pai para Portugal, e nas férias grandes ele fazia uma viagem enorme desde Portugal até à Moldávia, passava cerca de dois meses connosco e voltava para Portugal. Aos Domingos costumávamos falar cerca de um quarto de hora pelo telefone e ele dava-nos conta dos seus progressos, lá por Portugal.

Numa das nossas conversas disse que achava que já estava na hora de irmos viver com ele para Portugal. Nesse dia a conversa demorou cerca de 2 horas mas no final ficou decidido que eu e a minha mãe iríamos esperar até às férias grandes, e que depois partiríamos com ele para Portugal.

Fiquei super entusiasmada… poder voltar a estar com o meu pai todos os dias parecia bom demais para ser verdade…mas à medida que o dia se aproximava eu ia ficando cada vez mais nervosa… as saudades das amigas eram mais que muitas, pensar em sair da minha casa também não era muito agradável… Finalmente chegou o dia da nossa partida… Viajámos de carro o que demorou uma eternidade, e agora cá estou eu… Percebi que quase ninguém consegue compreender o que digo porque tenho um sotaque enorme, a casa onde estamos também não é grande coisa… Ou seja, acabei de chegar e já me quero ir embora… A minha transferência escolar já está tratada, e daqui a 15 dias começam as aulas. A escola é o que me tem deixado mais nervosa, porque os meus conhecimentos sobre a língua portuguesa ou sobre a história de Portugal são muito limitados.  

Bem, acho que vou tentar dormir, se não amanhã não acordo.

 

 

 

Dia 19 de Setembro de 2005

 

Segundo dia de aulas… Acho que já sei o nome de todas as minhas colegas, embora não os consiga pronunciar correctamente. Estivemos a falar sobre as melhores coisas de Portugal… Na conversa elas incluíram coisas desde pastéis de nata até organização de eventos desportivos.

A mãe também está a gostar de viver em Portugal. Disse que acha os vizinhos muito simpáticos, e hoje começou a procurar emprego. Enquanto isso o pai continua a trabalhar numa fábrica de calçado. Ele disse-me que o dinheiro que ganha na fábrica chega a ser superior ao que ele ganhava como médico. Para ser franca não acredito muito nisso… Agora vou ter de admitir uma coisa… Quando falei sobre a minha vida na Moldávia sublinhei o facto do meu pai ser médico. Acho que lhes queria mostrar que apesar de ser imigrante não era menos do que elas. Quando cheguei a casa comecei a pensar que tinha sido uma péssima ideia evidenciar-me, porque como o meu pai costuma dizer “nós valemos por aquilo que somos, não por aquilo que fomos ou tivemos”.

A partir de agora vou tentar não me armar porque essas atitudes apenas mostram que me preocupo com coisas estúpidas.

Acabei de tomar uma resolução: A partir de agora só me preocupo com coisas verdadeiramente importantes, e tentarei falar sobre coisas que mereçam ser discutidas.

 

 

 

Dia 10 de Outubro de 2005

 

A minha mãe disse que já estava com medo que isto acontecesse. Acho que perdi o entusiasmo por Portugal…Cada sítio por onde passo lembra-me a minha casa… até começo a achar que vejo as minhas antigas colegas pelas ruas por onde passo. Na escola parece que já ninguém me liga… Hoje passei o intervalo com as minhas colegas mas não falámos… ou seja, eu não falei, mas elas fartaram-se de falar, e eu não sabia sobre o que deveria falar. Durante a hora de almoço tive aulas extra para melhorar o meu português.

De vez em quando ainda me perco na escola, e hoje enquanto procurava a sala de apoio de português fiquei completamente desesperada… Corria de um lado para o outro e tentava a todo o custo encontrar a sala, e quando perguntava aos meus colegas onde era a sala eles simplesmente ignoravam-me, ou então (acredito mais nesta hipótese) estava tão nervosa que deveria de estar a falar um “moldagues”. Quando finalmente não aguentava mais e comecei a chorar apareceu uma das minhas professoras e com toda a calma levou-me à sala de apoio.

Adorei a aula… Senti-me muito bem porque não senti qualquer pressão por parte da professora e dos outros alunos, porque embora nos primeiros dias parecesse tudo perfeito, desde a última semana que tenho andado a reparar que quando eu dou alguma resposta errada certos elementos da turma trocam entre si olhares de satisfação, como se sentissem de alguma maneira superiores!

Naquelas aulas há apenas quatro elementos: eu, uma rapariga chamada Elodie que é francesa e veio para Portugal porque o pai dela ficou desempregado e achou melhor mandá-la para a casa da avó; há também um rapaz chamado Michael que vem de Jerusalém… claro que o nome dele se escreve de outra maneira mas eu não consigo escreve-lo como ele o escreveu. Os pais do Michael decidiram sair de Jerusalém porque a cidade está cada vez menos segura. O Michael confessou que prefere viver em Portugal porque lá nem se podiam dar ao luxo de ter amigos. Por fim temos a Guo, que foi a que sofreu mais com a mudança. Vem da China e é uma rapariga muito tímida… Eu já a tinha visto uma ou duas vezes sentada num banco completamente sozinha mas não tive coragem de lhe falar. A Elodie confidenciou-me que a Guo está sempre a ser insultada porque vem da China. Eu acho isso uma parvoíce… acho até que a China é um país espectacular, porque eles conseguiram desenvolver a economia de uma maneira espantosa (pelo menos é o que o meu pai diz). A Elodie não teve tantos problemas de adaptação porque as raparigas costumam ir ter com ela para pedir conselhos sobre roupa e maquilhagem, tudo porque ela viveu em Paris! Mas mesmo assim acho que a Elodie tem um pouco de mania… Quando saímos da aula queixou-se porque segundo ela a língua portuguesa é uma porcaria, a música portuguesa também não presta, e passou pelo menos uns bons cinco minutos a falar sobre os seus cantores franceses preferidos. Em relação ao Michael, ele é um rapaz, e os rapazes sempre tiveram mais facilidade ao adaptar-se. Basta que se saiba jogar futebol e pronto…

  

 


Dia 16 de Novembro de 2005

 

Hoje apanhei uma enorme decepção. Quando estava a sair da minha aula de apoio, as minhas colegas estavam a falar de mim. Uma disse que não fazia ideia de como é que eu não me sentia mal a usar aquelas roupas de marcas que ninguém conhecia… Outra imitou o meu sotaque e começaram todas a rir. Acho que elas se sentem bem a fazer troça dos outros, mas eu não consigo compreender que prazer é que isso lhe poderá dar. Mas o que mais me custou ouvir foi o comentário de uma delas. Disse qualquer coisa sobre eu ser uma mentirosa, porque se o meu pai fosse mesmo médico e se a minha mãe tivesse tirado o curso de psicologia não haveria motivo algum para eu viver cá. Embora tenha ouvido todos aqueles comentários decidi não ligar porque eu sou como sou e ninguém tem nada a ver com isso.

Quando cheguei a casa liguei a Internet e enquanto falava com as minhas amigas ia fazendo os trabalhos de casa. De vez em quando reparava que ela não tinham tema de conversa e era eu quem orientava a conversa. Já não me confiavam os segredos, já não me perguntavam como tinha sido o dia… E as minhas novas colegas… Bem em relação a elas, descobri que não estavam preparadas para ter colegas de outras nacionalidades.

Estou no meio de dois grupos completamente distintos, e não pertenço a nenhum dos dois.

 

 

 

 

Dia 21 de Novembro de 2005

 

Como a Guo estava com muitos problemas de adaptação, a direcção da escola decidiu mandar para as nossas aulas de apoio um psicólogo. A função dele é registar os nossos progressos e tentar perceber os nossos problemas de adaptação. Para ser franca não o achei muito simpático. Acho que ele só estava ali por obrigação. Eu acho que os psicólogos não deviam ser assim. Pelo menos a minha mãe não é. Ele não disse rigorosamente nada, limitou-se a olhar e a apontar tudo num pequeno caderno de notas. A aula correu normalmente, mas todos nós estávamos mais nervosos. No final da aula eu, a Elodie e a Guo fomo-nos sentar as três num pequeno banco e começámos a falar sobre os nossos países de origem. A Elodie disse que não gostava muito das suas colegas porque elas não tinham temas de conversa interessantes, e a Guo admitiu que não conseguia falar com elas porque elas consideravam os chineses um povo inferior. Como falámos em inglês conseguimos perceber-nos melhor umas às outras. Tivemos uma conversa muito interessante que foi desde música passou por livros e acabou com cinema. Tomámos uma resolução: Iríamos fazer com que as outras raparigas mudassem a sua maneira de pensar.

 

 

 

 

Dia 3 de Janeiro de 2006

 

Enquanto estávamos na biblioteca, a Guo sugeriu que aproveitássemos as aulas de apoio para fazermos um trabalho, para mostrar à comunidade escolar, curiosidades sobre os nossos países de origem. Achei a ideia simplesmente magnífica. Agradeci-lhe a ideia e quando tive a aula de apoio expusemos a ideia aos outros. O psicólogo que estava lá hoje, disse com o seu ar afectado que era uma ideia muito boa porque nos ajudaria a sentirmo-nos mais integrados, e aos outros alunos a tomar contacto com culturas diferentes.

Faremos o trabalho nas aulas de apoio, porque necessitamos de ajuda para não termos erros ortográficos.

A professora prometeu que ia à rádio escolar para pedir que de vez em quando eles passassem músicas escolhidas por nós. Amanhã levarei para a escola alguns dos meus CDs, e fotografias dos sítios que eu considero mais bonitos na Moldávia.

A mãe arranjou um emprego como empregada doméstica numa casa onde, segundo ela reina o desespero. Os filhos não têm educação nenhuma e os pais não se esforçam por a incutir. Para além do mais os pais não se conseguem entender e estão mesmo a pensar num divórcio litigioso. Litigioso porque nenhum dos dois quer dar o braço a torcer. Segundo o que a minha mãe me contou, quando um fala em divórcio, o outro discorda violentamente, e já estão nisto há mais de dois anos.

 

 

 

 

 

 

Dia 20 de Janeiro de 2006

 

Grande choque! A minha mãe trabalha na casa da Daniela! A Daniela é uma rapariga que gosta de se mostrar superior... Uma rapariga à qual eu chamava de mal-educada. Depois de ter sabido isto senti-me muito mal. Apercebi-me do que fiz. Julguei a Daniela antes de a conhecer. Depois de tudo o que a mãe me disse, compreendi que aqueles insultos e os comentários que eu estou sempre a ouvir da parte dela, são apenas uma máscara. Provavelmente se eu tivesse os mesmos problemas que ela reagiria de forma semelhante… Fiz exactamente o que ela me fez… rotulei-a. Enquanto ela me rotulou de imigrante, eu rotulei-a de insolente… Acho que é por isso que existem tantos problemas no mundo… as pessoas rotulam-se umas às outras, sem se tentarem conhecer primeiro.

As pessoas começaram a aceitar-nos. Quando ando pela escola, já me dizem olá. E o melhor de tudo é que já tenho nome, quer dizer, nos primeiros tempos quando falavam de mim, chamavam-me a imigrante, mas agora já sou a Yana.

 

 

 

Dia 23 de Janeiro de 2006

 

Fiz um esforço para me dar melhor com a Daniela. Fiquei espantada por ela não ter ido dizer que a minha mãe fazia limpezas na casa dela. Das duas uma: ou ela tem medo que eu revele a situação que se vive em casa dela, ou sabe que mais dia, menos dia a minha mãe deixará de lá trabalhar… acho eu.

Eu ajudei as outras a fazerem os trabalhos de casa… foi um primeiro passo para uma possível… não direi amizade, mas uma relação cordial.

O meu esforço foi compensado com um convite para almoço na mesa mais importante do refeitório. Sempre achei que isso de se ter mesas para os mais populares e para os menos populares era uma parvoíce, mas também não queria ser indelicada, por isso sentei-me na mesa comi com toda a calma, e a Daniela mostrou-se mais simpática.

Quando contei à minha mãe a situação ela disse que achava que a Daniela não tinha nenhum amigo verdadeiro, tal como eu. Mas eu já tinha decidido começar tudo a partir da estaca zero… e isso incluía também os amigos.

Provavelmente a Daniela não consegue ver quem são os seus verdadeiros amigos.

 

 

 

 

Dia 10 de Fevereiro de 2006

 

Aos poucos e poucos vou-me começando a adaptar e tenho de admitir que já não sou tão tímida como era antes, e já me vou sentindo mais confiante… O psicólogo disse que eu estava a começar a “sair da casca”! Mas também o psicólogo diz muita coisa quando não está a escrever no seu bloquinho de notas.

A escola foi incluída num projecto a nível europeu, onde os jovens falam sobre as coisas más e as coisas boas de cada país. Eu acho isso muito bom. Acho que a Europa é o continente mais unido de todos e acho isso mais do que bom, porque o que são os países? São apenas terras delimitadas por uns “muros” aos quais alguns governantes teimam em chamar fronteiras. E são esses muros que nos têm andado a distanciar uns dos outros… as pessoas têm de compreender o significado daquela frase muito famosa “todos diferentes, todos iguais”. E acho que o espaço escolar é o melhor sítio para começar a baixar as fronteiras. Segundo a minha mãe daqui a 2 anos voltaremos à Moldávia, e se eu conseguir ajudar os novos alunos a derrubar por completo as barreiras existentes entre os países, acho que a minha vinda para Portugal, foi mais do que satisfatória.

 

 

 

publicado por ladybird às 21:50
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2 comentários:
De sara a 2 de Novembro de 2006 às 08:54
adorei...tnx mt jeito pa isto kualker dia es uma escritora lol...mx axerio ta mt giro mt bem escrito kntinua axim. jokas da sara
De ladybird a 7 de Novembro de 2006 às 18:35
Obrigada Sarocas... Isso do escritora, não sei.. talvez... :P

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